Edição de colecionador

As posições relativas aos formatos físicos (livros, filmes, música, jogos…) dividem-se em dois grandes grupos: (1) os que querem continuar a consumir formatos físicos; e (2) os que já adotaram ou querem adotar um consumo 100% digital. Não me identifico com nenhum deles.

Eu sou um adepto incondicional dos formatos físicos. Para mim não há ficheiro que substitua uma edição volumosa do “The Lord of the Rings”, ou thumbnail e PDF que substitua uma EP obscura da minha banda do momento. Tiro um gozo tremendo em jogar Skyrim com o mapa do jogo estendido na mesa de centro da minha sala, e deliro só de olhar para as edições limitadas de alguns blu-rays. Nada disto quer dizer, ainda assim, que eu seja contra um futuro predominantemente digital. Pelo contrário.

Eu também sou um adepto incondicional dos conteúdos digitais. Quero continuar a consumir filmes, música, jogos e livros, mas não tenho grande interesse em possuir todos os conteúdos em formato físico. Apenas os que são *mesmo* especiais.

Não é preciso sequer ir buscar estudos de mercado e outros trabalhos estatísticos para perceber que caminhamos a passos largos para um futuro predominantemente digital. Isto são boas notícias. É exatamente por isso, aliás, que acredito estarmos prestes a assistir ao advento de novos serviços print-on-demand.

I Finally Cracked It (not really)

O meu problema com a maioria dos conteúdos em formato físico é este: são demasiado impessoais numa geração que anseia por artigos talhados à medida. Por mim falo. O primeiro “The Hobbit” que comprei era tão bleh que só quando adquiri a edição do 75º aniversário é que consegui ler o livro do princípio ao fim.

Um artigo publicado na Wired (Dez 2011), intitulado “A New Hope for Books”, fez-me pensar sobre o futuro da indústria livreira em particular – e como esse futuro não passa apenas pelo Kindle. (É conveniente que este artigo surja na Wired com o tema de capa “Amazon”.) No artigo, escrito pelo jornalista Clive Thompson, lê-se que «As editoras dos livros “grandes” vão continuar a optar pelo Kindle e companhia, enquanto as editoras mais modestas vão recorrer ao print-on-demand para formatos que priviligiem a fisicalidade tais como mementos, livros visualmente luxuosos e edições limitadas e personalizadas de obras literárias»[1]. Eu acho isto interessantíssimo, mas vou mais longe.

Os livros – mais do que os filmes e a música e muito mais do que os videojogos – têm, literalmente, centenas de anos de tradição. Os elementos constituintes do livro só nos últimos anos receberam uma mutação significativa na forma de e-books. Há muito tempo que os livros, independentemente do seu tamanho ou encadernação, são muito semelhantes (tivemos mais mecanização com o passar dos anos, mas não muito mais).

Os livros em formato físico vão subsistir muito depois do desaparecimento dos filmes em blu-ray ou mesmo da música em CD (já nem falo dos videojogos). Eu acredito nisto por duas razões: (1) por causa dessa tradição com centenas de anos; e (2) porque os livros, ao contrário dos outros formatos de entretenimento, não precisam se não deles próprios para serem consumidos.

De novo, não tenho ilusões: os e-books vieram para ficar, mas isso não significa o desaparecimento do livro como o conhecemos.

O que eu quero

Uma Threadless ou Sculpteo dos livros, basicamente. Já existem algumas empresas que produzem livros personalizados como a Lulu ou a Blurb, mas o serviço direcciona-se em especial para self-publishers. O que eu quero é um serviço que me ofereça um catálogo completo de livros de ficção e não-ficção aliado a uma panóplia de opções de personalização para eu poder criar os meus próprios livros.

Imaginem a seguinte situação: um livro como “A Canticle for Leibowitz”, que retrata a história de um grupo de monges que procuram preservar o que resta da civilização após uma guerra nuclear, poderia ser personalizado de tal forma que ostentasse uma hardcover com o grafismo reminiscente da primeira edição do livro, formato A4, folhas com aspeto gasto e fonte com caracteres de estilo medieval. E sem excertos de críticos na capa e/ou contracapa. Se o livro fosse para oferta seria até possível acrescentar uma folha com mensagem impressa.

As vendas dos livros em formato físico vão piorar antes de melhorar, mas o sucesso dos e-books vai em última análise abrir as portas para o surgimento de novos negócios e mercados na área da impressão. Há toda uma questão de licenciamento que estou aqui a ignorar, mas uma vez ultrapassadas todas as barreiras o que fica é uma indústria com potencial para crescer e florescer. Voltando ao artigo do Clive Thompson, «O print-on-demand (…) vai manter os livros vivos – ao permitir que eles sejam muito mais esquisitos»[1].

A ideia aqui é acrescentar valor ao produto original, nem que para isso seja preciso pagar premium (a vantagem do ponto de vista da empresa) pelo privilégio de ter um livro personalizado à medida (a vantagem para o consumidor).

[1] Thompson, Clive. “A New Hope for Books.” Wired. Dez 2011: pag 62

Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

1 Comentário

Filed under Tecnologia

One response to “Edição de colecionador

  1. Não tenho uma ideia completa sobre como será o futuro da publicação, em particular a de livros, mas penso que a especialização (de distribuição neste caso) é um dos mais, se não o mais provável ponto de convergência, porque me parece tratar-se de um meio (ainda) comercial. Quero com isto dizer que de obras selectas a monges copistas à erradicação cultural de alguns regimes e chegando ao mercado de massas, os livros sempre foram uma das formas de arte e entretenimento “malditas”. O público em geral ainda os considera uma hidra, mais associado ao meio intelectual do que, por exemplo, a música e o cinema (não obstante, claro, os problemas de penetração de mercado que esses possam ter nalguns casos, daí a organização de eventos independentes, ciclos de cineastas, etc.). Nesse contexto, faz sentido um formato físico, especialmente um que seja especializado e personalizável. E quanto ao digital, o espectro das reedições – o custo de actualizar livros com correções, anotações e semelhantes – e da exclusão de géneros menos populares parecem-me exponencialmente menores.

    É claro que ainda existe um problema no meio digital e que sempre existiu no físico, que é dar a conhecer a milhões de potenciais leitores um livro, mas isso pode ser resolvido, mesmo que parcialmente, com marketing, redes sociais e projectos como o Kickstarter.

    [Pode ser uma tangente, mas isto lembra-me o modelo de subscrições que “invadiu” a imprensa, juntamente com aumentos de publicidade, a diminuição dos formatos e o “boom” de conteúdos online gratuitos (os quais também são cada vez menos gratuitos, mas isso já leva a outros tópicos)]

    Quanto aos jogos, é tal e qual: há muito pouco que se equipare a um mapa físico, entre outros “feelies”, mas também acho que a predileção por este ou aquele formato (além de razões comerciais, estéticas e de acessibilidade) também tem raízes no estado da indústria. O “backbone” desta tendência, pelo menos na actualidade, parece-me ser a pirataria. Apesar de não considerar que é o flagelo que muitos a acusam de ser, é uma presença constante e tem consequências. Outras coisas a considerar são a interdependência crescente entre produto e consumidor (no sentido de redes sociais usadas como veículo para editoras e estúdios, mas também a partilha do que andamos a jogar – outra tendência que está a crescer), e o simples facto de ter um *bom* serviço de distribuição digital. Navegar pelo Steam, mesmo em momentos “window shopping”, é um prazer; por outro lado, quando a Amazon.uk me recomenda o “Barbie Horse Adventures” porque vi a página do Oblivion… Sem comentários. E claro, os preços – raramente vejo promoções referentes a livros, pelo menos semelhantes aos “saldos” na loja da Valve, ou na D2D ou GoG.

    Pessoalmente, a única razão pela qual ainda dou uma certa preferência ao formato físico prende-se com o DRM. Sempre tive o azar de nunca ter ligações fiáveis à internet, pelo que estar online para jogar single-player me afasta de jogos que, provavelmente, até compraria.

    De resto, excelente artigo :)

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