Já não gosto do meu smartphone

Foto: Mashable (DR)

A decisão da Apple em aumentar o ecrã do iPhone de 3,5 para 4 polegadas oficializa a preferência do mercado por smartphones “grandes”. Sinceramente, não me ocorre um único smartphone topo-de-gama com uma diagonal inferior a 4” — e agora também anda para aí o conceito de “phablet” que, cada vez mais, acho inenarrável (a sério, nunca pensei que os PDAs pudessem voltar…).

Eu uso um Galaxy S II. Na altura pareceu-me a escolha certa: não queria lidar com o jardim cercado da Apple e gostava da ideia de ter um screen real estate generoso já que não tinha intenções em investir num tablet no médio prazo. Hoje não suporto usá-lo.

As minha queixas não se prendem necessariamente com o software (apesar de reconhecer limitações no SO Android, começando por aquilo que sinto ser um “laissez faire” digital). Não. Queixo-me sobretudo do hardware.

Que fique registado que não tenho nada contra ecrãs de grandes dimensões por princípio. O que me lixa é aperceber-me que a integração dos ecrãs nos dispositivos é, por norma, feita sem preocupações do ponto de vista da utilização.

O smartphone é o derradeiro exemplo de tecnologia pessoal. Não acredito que exista hoje um dispositivo que diga tanto sobre nós próprios como o nosso telemóvel. É lá que se encontram os nossos contactos (porque é o nosso principal meio de comunicação com o exterior), as nossas fotos (porque é provável que seja também o nosso principal dispositivo de captura de fotos e vídeos), as nossas músicas, informação privada, etc. Em resumo, o smartphone é uma extensão de nós próprios.

Esta relação intimista que desenvolvemos com os smartphones tem, para mim, um efeito direto na forma como usamos estes dispositivos. É por isso que se eu fosse responsável pelo design de um smartphone a minha preocupação número 1 seria conseguir fazer tudo com uma mão.

À primeira vista pode parecer parvoíce, mas não é. Um equipamento bem concebido não compreende apenas a estética ou os materiais de contrução; compreende também a relação humana. Exemplificando: tablets como o iPad fazem uma curva nos cantos para que seja possível levantá-los de uma mesa com uma mão só.

No caso do Galaxy S II descobri um dispositivo tecnicamente capaz, mas extremamente mal concretizado do ponto de vista do design. Para além dos materiais sinceramente baratuchos (o que é irritante tendo conta tratar-se de um modelo caro), o smartphone não “assenta” bem na mão. Na verdade, estou constantemente a ajustar o telemóvel quando preciso por exemplo de chegar aos cantos do ecrã. É um desafio que não devia existir; busy work que não combina com a relação íntima que nutrimos com os smartphones. E a solução passar por usar as duas mãos — algo que só revela um equipamento mal concebido. (Eu sei que há casos em que isso é inevitável. Jogos por exemplo.)

Terá sido (também) por isso que a Apple se atrasou em aumentar o ecrã do iPhone? Afinal, no site oficial da Apple lê-se a propósito do novo display Retina de 4” do iPhone 5 que “It’s not just bigger. It’s just right”. Eu ainda não peguei num iPhone 5, mas questiono-me se não terá existido a preocupação genuína em criar um dispositivo maior (para servir a tendência do mercado) mas que continuasse a permitir uma utilização completa através de uma mão só. O que é mais do que posso dizer sobre outras fabricantes.

Mais coisas que me irritam: portáteis em que é impossível abrir a tampa sem o resto vir atrás. Mas isso é outra história.

4 comentários

Filed under Tecnologia

4 responses to “Já não gosto do meu smartphone

  1. hellotiagofranco

    O ecrã maior do iPhone é algo que me preocupa, o original tem aquele tamanho por uma razão: A diagonal do ecra coincide com a area que o polegar da maioria das pessoas consegue cobrir confortávelmente. Portanto, pensado para o uso com uma unica mao. Com o novo e com a maior parte dos outros telemoveis topo de gama isso nao acontece. Por outro lado, ontem peguei pla primeira vez num iPhone 5 e devo dizer que com o peso tão baixo parece tão… Positivame te estrango e bom na mão. It feels right, nao consigo explicar. Parece solido, robusto, feito com dedicação e atençao a cada pormenor.

    PS.: Isso de abrir a tampa do portátil sem que venha tudo atrás também foi uma coisa que reparei quando comprei o Macbook Pro. A força que é preciso fazer para abrir a tampa é a ideal, todo o resto do portatil continua assente na mesa. It’s the little things.

    • Nuno Ramos

      “It’s the little things”
      Amen, brother

      Ainda bem que se confirma isso do iPhone 5. Tenho imensa curiosidade em pegar num. Curiosidade suficiente talvez para considerar mudar de ares novamente.

  2. Não são coisas pequenas. Tende-se a confundir a força da marca com o marketing, mas na realidade a Apple tem o que poucos têm: começam sempre pelo utilizador. E falo sem ter iPhone e não sentir a necessidade de ter um. Mas tenho macs desde 1990 e (quase) sempre me senti apreciado quando uso um. (Alguns têm falhas que para mim são irreconciliáveis, como um trackpad sem botões a que não consigo habituar-me. Mas quando tento fazer o mesmo numa máquina com WIndows com trackpad com botões, pareço um anormal que nunca mexeu num computador.)

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